Acelerando um futuro sem diferenças

Corpo ou Força ?

 

Sou brasileira. Nasci em São Paulo, mas fui criada no Nordeste, na Paraíba, onde mulher é “mulher macho sim sinhô”, como diz o ditado. Fui educada sob as regras e as normas de uma sociedade machista: sou uma mulher – logo sei o meu lugar. Aos 23 anos, tive a oportunidade de morar na Suécia. Eu mudei para aquele país  frio, nórdico e dos vikings e lá vivi por 12 anos. Grande parte da minha referência de vida adulta foi formada lá.

Entre Brasil e Suécia, não há apenas diferenças, há um abismo em todos os aspectos. No quesito de paridade de gênero, especificamente, de acordo com Ranking Global de Igualdade de Género 2017, a Suécia está em 5º, e o Brasil está em 90º.  Só para se ter uma referência, o país africano Ruanda está em 4º. Mas o que aconteceu comigo foi o seguinte:  eu nasci e fui criada no Brasil, nos 80/90, em uma cultura essencialmente machista, em que o corpo era (e ainda é) muito objetificado. Em todos os modos e em todos os meios de comunicação, tivemos grandes progressos desde então. Quem cresceu nessa época lembra dos absurdos que assistíamos pela TV e que eram considerados normais. Quando fui para a Suécia, na questão de igualdade de gênero, por exemplo, minhas primeiras percepções foi me sentir invisível. Invisível no sentido de ninguém olhar na rua, ninguém assobiar, ninguém soltar pilhéria.

E em um primeiro momento, isso teve um impacto enorme na minha na auto-estima porque fomos educadas a achar esse assédio na rua normal, a achar que quando alguém te chama de “gostosa” na rua é sinônimo de que você está “bem na fita”. Porém eu percebi um monte de outras coisas: meu corpo (gordo, magro, preto, branco, alto ou baixo) não fazia a menor diferença para nenhuma ocasião. Por lá, os homens não me olhavam da forma que eu estava acostumada no Brasil  – e estava tudo bem! Eu não precisava daquilo. Que as propagandas, a TV, os jornais não tratavam a nossa imagem e o nosso corpo como eu havia aprendido e que aquilo era sinal de que havia um respeito maior entre todos. Ao decidir voltar para o Brasil, já tinha vivido m terço da minha vida na Suécia. E morando aqui há seis, me dei conta de quanto nós somos fruto do nosso meio e que talvez se eu não tivesse tido a oportunidade de experimentar essa outra realidade, talvez eu não pensasse assim.

Mas e aí? Ferrou? Porque além de ainda sermos o 90º país no Ranking Global de Igualdade de Gênero, países como Ruanda, Mongólia, Honduras e nosso vizinho Bolívia estão muito à nossa frente nesse quesito. Será a solução todos se mudarem para a Suécia para poder ter outra perspectiva e transformar suas próprias realidades? Não! Tão importante quanto o meio em que vivemos é o exemplo! Ah, o exemplo… Tenho dois filhos. Yuri com 12 anos e Yasmin com 10. Lá em casa não escutamos músicas com contexto sexual ou de objetificação do corpo. Pelo menos não ainda. E aí, Annita lança mais um hit avassalador impossível de ficar parado quando se escuta: Vai Malandra! A música toca em todas as festas e as crianças todas dançam ao som de: “Vai, malandra, an na/ Ê, ‘tá louca, tu brincando com o bumbum/An an, tutudum, an na/ Vai, malandra, an na/Ê, ‘tá louca, tu brincando com o bumbum/ Desce, rebola gostoso/Empina me olhando/ Te pego de jeito/ Se eu começar embrazando contigo/ É taca, taca, taca, taca/.

É muito difícil você tirar o contexto sexual (que está explicito) de uma música como essa e de centenas outras que viram hits. E para uma criança que por mais que ainda aquilo não faça sentido, uma hora vai fazer e ela pode achar normal. O menino ou a menina. E vai acreditar que seu corpo é um objeto.

Uma vez no carro, dirigindo com os pensamentos perdidos, uma música com a uma batida gostosa e viciante começa a tocar: Vai Malandra!  Eu não atenta, só no “An an, tutudum, an an”, de repente ouço um: “Mamãe!!! Tira essa música”, vindo de minha filha Yasmin. Ah, o exemplo! E que fique bem claro: eu educo meus filhos da forma de que depois  formada suas personalidade eles poderão escutar o que desejar, dançar da forma que quiser e achar mais bacana.

 

No ano passado, em meu aniversário, recebi um cartão dessa mesma filha Yasmin onde além dos votos de felicidade ela escreveu #poderdamulher #juntassomosmaisfortes . Isso me pegou bem desprevenida porque, apesar de ser feminista, esse assunto não é pauta na mesa na hora de jantar. Ela espontaneamente escreveu para me homenagear porque isso é o que ela vê em mim e em seu pai Christian,  que tem um papel tão importante quanto o meu nessa jornada… Ah, o exemplo! Somos muito mais do que um par de olhos, pernas, um bumbum. Mas para que tenhamos progresso, essa percepção tem que começar de nós mesmos como exemplo. Essa  consciência tem que vir da cada um de nós, mulheres e homens. Temos que ensinar para a sociedade que nos educou a forma que queremos que eles nos vejam: como um CORPO ou como uma FORÇA?

Eu quero ser FORÇA. Pois a minha beleza vem dela, da força da minha luta diária. Porque  eu até que tô bem para os meus 40. Mas essa beleza não vem dos meus cabelos, das minhas pernas ou da barriga tanquinho (que eu não tenho). Essa beleza vem da minha força de ser mulher. Da força que emano. Da força daquilo que sou, do que quero e do que posso ser. E por mais clichê que seja: uma atitude vale mais do que mil palavras!

Em tempo: se tiver a oportunidade, vá, sim, morar fora do país por um tempo.  Morar em outro lugar é uma das formas mais poderosas de crescer e mudar seu mindset.

 

Marcela Fujiy ama aprender e compartilhar suas experiências. Com espírito empreendedor, sente-se em constante evolução. Morou por 12 anos na Suécia, país que hoje ocupa o quinto lugar no Global Gender Gap Ranking, e já atuou em diversas empresas multinacionais. É co-fundadora da Be.Labs Aceleradora e está a frente de um negócio reconhecido nacionalmente a partir de uma gestão inovadora. Em suas andanças pelo mundo, traz na bagagem 45 países visitados, muitas maratonas percorridas, diversas medalhas conquistadas e um vigor de quem não cansa de perseguir seu propósito: desenvolver pessoas e a si mesma em prol de um mundo sem diferenças. Com 40 anos, é casada com Christian e mãe de Yuri e Yasmin – com quem também aprende todos os dias.

1 Comentário
  1. Que lindo Ma!!! Parabéns por ser quem vc é! Saudades!

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